VARIAÇÕES DE FRONTEIRAS CULTURAIS E POLÍTICAS: SILKO, MOMADAY, JECUPÉ E O ESPAÇO ENTRE MUNDOS
Lucia Helena de Azevedo Vilela - UFMG
A perda do tradicional sentido de lugar mostra-se como um dos referenciais expressivos da pós-modernidade. Em sua análise das questões do tempo e do espaço na pós-modernidade, Joseph Francese lembra que “o trabalhador alienado e migrante da modernidade se metamorfoseou em sua contraparte pós-moderna, que é fragmentada pela perda do sentido de lugar e de comunidade”[1]. Por outro lado, essa mobilidade de tempo e espaço permite uma re-orientação no tratamento desses aspectos redefinindo espaços e permitindo a convivência de passado e presente. Nesse presente constante contracenam as tendências primordiais das culturas tradicionais e o sujeito desnudado de ligações geo-espaciais da pós-modernidade.
Em seu ensaio crítico, “Postmodernism as Border Pedagogy: Redefining the Boundaries of Ethnicity”, Henry Giroux (1993), observa que o discurso dominante da modernidade reduziu raça e etnias a um discurso do Outro, que freqüentemente essencializa e reproduz a distância entre os centros e as margens de poder. Essa visão mostra o Outro como alguém a quem faltam tradições comunitárias e peso cultural já que se baseia no pressuposto da existência de um sujeito eurocêntrico que ocupa um ponto de convergência de poder. Giroux esclarece porque a alteração de fronteiras da alteridade é possível apenas à luz da perspectiva pós-moderna, já que esta proporciona a abertura de posicionamentos políticos no discurso e na representação. Em suas palavras, essa perspectiva “abre uma nova fronte política dentro do discurso e da representação”[2]. De acordo com esse enfoque, a eliminação da noção de um centro traz à tona uma política de transgressão de acordo com a qual é possível se ter uma visão crítica distanciada de um sujeito eurocêntrico unificado destinada a legitimar uma ideologia de colonização e marginalização dos Outros. Assim sendo, a pós-modernidade estabelece uma condição primordial que possibilita que modos heterogêneos de vida desempenhem papéis iguais também do ponto de vista educacional de acordo com aquilo que é definido por Giroux como uma pedagogia de resistência: “uma pedagogia de fronteira de resistência pós-moderna”[3]. O objetivo deste trabalho é realizar uma abordagem abrangente de obras dos autores indígenas norte-americanos, Leslie Marmon Silko e N. Scott Momaday, e de obras do autor indígena brasileiro Kaka Werá Jecupé de acordo com uma possibilidade de variação de fronteiras culturais e políticas. Não se trata de análise dos textos selecionados, mas de considerações sobre a possibilidade de variações de fronteiras culturais ilustradas pelas obras daqueles autores.
A pedagogia definida Giroux a que me referi acima pressupõe uma visão pluralista segundo a qual abrem-se as fronteiras para que se possa ouvir o Outro. Giroux explica o que significam diferença e pluralismo de acordo com essa pedagogia de resistência: “o que está sendo proposto é uma linguagem na qual diferentes vozes e tradições existam e floresçam a tal ponto que ouçam as vozes dos outros”[4]. Esta é, portanto, uma perspectiva política que combina uma filosofia democrática pública com uma teoria pós-moderna de resistência a uma rigidez de limites que leva a uma redefinição de fronteiras culturais.
A redefinição de fronteiras, entretanto, esbarra em uma questão fundamental para os povos indígenas, que é a de sua ligação com a terra natal. Helen Jakosky comenta esse ponto na obra de Leslie Marmon Silko: “Nada em sua ficção é mais forte do que o seu sentido de pertencer a essa paisagem, (norte do Novo México, Laguna Pueblo) assim como de esta última pertencer a ela”[5]. E é a própria Leslie Silko que revela o quanto ela apreciava olhar para sua terra quando criança e ver a si mesma dentro das histórias tradicionais de seu povo: “estando no local de um fato contado em uma das antigas histórias (...) eu podia me visualizar dentro da história que estava sendo contada”[6]. Por outro lado, a forte ligação de Silko com a terra de origem não a torna inflexível no tratamento das fronteiras espaciais e étnicas, pelo contrário, lida de forma especial com a questão dos povos mestiços, reconhecendo o seu hibridismo e sua identidade, como observa Victoria Bomberry:: “Silko abala os alicerces da linguagem racista corrente que nega aos povos mestiços uma identidade própria. (...)Ao explodir o mito profundamente enraizado dos mestiços, Silko força tanto índios como não-índios a olharem com atenção as nossas culturas”[7].
Na visão de N. Scott Momaday, uma nova definição da identidade indígena não estaria no extremo do nacionalismo que confina os povos indígenas em reservas que ele denomina “campos de concentração”[8]. Por outro lado, isso não implica, segundo ele, em uma assimilação cultural completa e uma rejeição da herança cultural indígena, como ele argumenta:
O índio, para descobrir quem realmente é, precisa fazê-lo em uma base comparativa. Não lhe faz nenhum bem saber quem ele é, na medida em que esse conhecimento o isola, o aliena e fecha para ele todas as oportunidades disponíveis no mundo. Não. Ele precisa aproveitar as possibilidades, reconhecendo as oportunidades e aproveitando-as mantendo sua identidade. Nós não pretendemos "congelar" o índio no tempo, imobilizá-lo em um certo ponto de seu desenvolvimento. Nós não queremos acabar chegando a um homem do século dezenove no século vinte. Ele tem de se aventurar , eu penso, para além de seu mundo tradicional, porque existe um outro mundo bem real. E existem muitos outros mundos a caminho, em rápida sucessão. Mas é possível a ele realizar essa aventura sem sacrificar o seu ser e sua identidade.[9]
O conceito explicitado por Momaday de uma aventura entre mundos, e para além desses mundos, pode ser visto como o espaço entre culturas à luz da noção pós-moderna de redefinição de fronteiras culturais. Como foi mencionado anteriormente, em um mundo em que não pressupõe a noção de centro é possível ao sujeito movimentar-se de um a outro espaço sem perda de identidade. Entretanto, a redefinição de fronteiras entre culturas abre possibilidade mais amplas para que modos heterogêneos de vida possam desempenhar papéis de importância equivalente e de terem ressonância.
Em seu romance, Ceremony, Leslie Marmon Silko narra o percurso de Tayo, um jovem indígena norte-americano, que retorna à reserva de seu povo – Laguna Pueblo – em busca de suas tradições e histórias, após ter vivido os horrores de se tornar prisioneiro do exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. N. Scott Momaday, em seu romance House Made of Dawn, enfatiza os problemas vividos pelas sociedades indígenas norte-americanas contemporâneas, evidenciando a importância dos rituais e da tradição oral através da utilização da memória na construção do enredo. O romance agrega diferentes níveis de percepção e revela a complexa luta das culturas tribais em um mundo que representa uma ameaça a essas culturas. Abel é um jovem indígena e protagonista do romance de Momaday que, assim como Tayo, retorna aos ritmos e histórias da cultura tradicional de seu povo após ter se confrontado com um verdadeiro inferno no contato com o mundo não-indígena.
É importante lembrar que, para as sociedades indígenas, os fios que ligam passado e presente através do constante rememorar da narrativa oral ligam também os seres à terra – essa força agregadora de sua cultura. Diferentemente das sociedades hegemônicas nas quais as culturas indígenas se encontram de forma superposta, as ligações geo-espaciais das sociedades indígenas não se dão em termos de linhas divisórias geo-políticas. A conexão se faz com um ponto imaginário – centro do planeta. Linda Hogan, poeta e escritora indígena norte-americana, explicita assim essa tendência inerente a seu povo de buscar nas marcas deixadas pela história a delimitação geopolítica do presente:
Nós precisamos, sem mesmo dizê-lo, ver os caminhos em forma de arco, fósseis, fragmentos de uma civilização mais antiga, a fim de ler a linguagem de um passado remoto que ainda é falado na pedra, pelo vento, nos petróglifos. Nós desejamos tecer juntos os fios de onde viemos com aqueles que somos agora e para onde estamos prosseguindo. Nossa jornada humana aqui reúne as histórias de cobras, corujas, camaleões, aos ventos longínquos e às águas sinuosas. Nós mensuramos o nosso lugar através dessas histórias, através do nosso movimento e da nossa definição da intensa luta humana pela sobrevivência, seja qual for o significado e a revelação viva nessa ardente luz do dia.[10]
Tomando-se a perspectiva anteriormente referida como presente contínuo, pode-se buscar formas de contracenar tempos e locais diversos das vozes dos escritores indígenas norte-americanos com aquelas dos escritores indígenas do Brasil. Leslie Marmon Silko e N. Scott Momaday encontram na narrativa dos Laguna Pueblo e dos Kiowa, respectivamente, formas de se apoderarem da história de suas nações através das imagens míticas – que revigoram a narrativa presente. A narrativa dos deslocamentos das personagens centrais de um espaço a outro nos dois romances mencionados é pontuada por considerações a respeito das características dos dois mundos e da possibilidade de um ser "contaminado" pelo outro, permitindo uma convivência entre espaços diferenciados. As noções de ”contaminação” e de “pureza” parecem estar, também, em duas obras do autor indígena brasileiro Kaka Werá Jecupé: A Terra dos Mil Povos: História Indígena do Brasil Contada por um Índio e Todas as Vezes que Dissemos Adeus.
O jovem narrador de Jecupé tem de enfrentar o escárnio das pessoas que vêem a ele e sua família como diferentes e sem asseio quando ele e seus amigos tentam trocar peças de artesanato por comida. Jecupé e sua família foram obrigados a sair das terras onde moravam porque estas não lhes pertenciam e sim a imigrantes brancos. Foram informados que a terra fora doada a imigrantes alemães pelo Imperador Dom Pedro II no século dezoito. Sua família teve de se mudar para o litoral, já que os descendentes dos imigrantes alemães diziam possuir documentos que permitiam que a “civilização” expropriasse e destituísse os primeiros brasileiros de sua ligação com a terra. Jecupé comenta com amargura sobre o poder das leis: “Nessa parte do país a civilização é mais moderna. Lá no Norte ainda expulsa-se a bala. Aqui documentos do imperador.”[11]
Para Jecupé, constitui parte de sua estratégia enquanto escritor escrever para ajudar seus leitores a identificar as características da cultura dos Txukarramãe ou dos Guarani dos estereótipos de índios como são vistos e reconhecidos pela sociedade branca majoritária das cidades grandes nas quais ele era visto como um pária. Para ele, seu nome possui a função de um escudo que o protege de todos os tipos de comportamento agressivo contra ele e contra seu povo, uma vez que ele mostra a sua consciência do poder que as palavras encerram não só em sua cultura como fora dela: “Kaka é um apelido, um escudo. De acordo com nossa tradição, uma palavra, uma palavra pode proteger ou destruir uma pessoa; o poder de uma palavra na boca é o mesmo de uma flecha no arco, de modo que às vezes usamos apelidos como patuás.”[12].
De forma semelhante a de Leslie Marmon Silko e N. Scott Momaday cujas personagens centrais dos romances aqui focalizados transitam entre o mundo da sociedade majoritária e o mundo dos Laguna Pueblo e dos Kiowa, o narrador de Jecupé atravessa fronteiras similares entre aquela e o mundo dos Txukarramãe. A possibilidade de trânsito entre fronteiras culturais é o que permite que se vislumbre um enfoque das variações de espaços culturais. No caso de Silko, ao focalizar sua narrativa em Cerimony em uma personagem mestiça, que vivencia o trânsito entre o mundo indígena e o mundo da cultura branca majoritária, os conceitos de "contaminação" ou de "pureza" em relação às mesclas culturais não se evidenciam tanto como no caso de Momaday e Jecupé. A estratégia literária de Silko parece abrir-se de forma evidente para a possibilidade de existência de uma zona fronteiriça entre culturas, caracterizando um espaço político sujeito a variações.
Uma redefinição de espaço político é o que motiva Russel Thornton, um antropólogo Cherokee a perguntar: "A quem pertence o nosso passado?" Este é o título de um artigo de Thornton sobre a repatriação de restos mortais e de objetos culturais indígenas com a sua retirada de museus. O ensaio de Thornton é um exemplo significativo de como o conceito de Giroux de uma pedagogia de fronteiras pode motivar uma redefinição das noções de comunidade e de língua. Nas palavras de Thornton, entra-se em contato com um fato marcante nas relações das sociedades indígenas norte-americana com um doloroso passado de massacre de seus membros que tem início nos tempos coloniais e que se prolonga através dos anos deixando profundas cicatrizes no presente. No evento narrado por Thornton, um grupo indígena Cheyenne do norte dos Estados Unidos chega ao Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian com a finalidade de demandar a posse de seus mortos. Esse evento ocorre 115 anos após o massacre da população indígena localizada próximo a Fort Robinson, no estado de Nebraska. De acordo com Thornton, o massacre ocorre como uma tentativa desesperada de liberdade."[13]
Esse mandado judicial de repatriamento, relatado por Thornton, fez com que fosse possível a reencontro simbólico de uma menina indígena com sua família. Durante a cerimônia de repatriamento, descobriu-se que uma parte inferior de um crânio rachado do museu de Harvard se encaixava com a parte superior de um crânio do Smithsonian. A cabeça da menina havia sido despedaçada e cada parte terminou por ser colocada em um local diferente. Como um jovem indígena comentou com o autor do artigo, naquele momento a menina estava feliz pois voltara a reencontrar-se com seu povo, após a recomposição de seu crânio. Esse acontecimento ganha especial importância para as sociedades indígenas na medida em que seus valores éticos e culturais e seus conceitos podem ser reintegrados através desse fato emblemático. Ele representa o reconhecimento da soberania dos povos indígenas e seu direito de enterrar seus mortos de acordo com suas tradições após terem se deslocado de seu espaço delimitado para buscarem emblemas de sua herança cultural no espaço restrito e público dos museus da sociedade hegemônica.
A cerimônia de repatriamento dos restos mortais indígenas à sua própria terra, ao seu espaço imaginado, está em sintonia com o ponto central das obras de Silko, Momaday e Jecupé aqui focalizadas já que as personagens centrais das narrativas desses autores retornam ao seu local de origem depois de se distanciarem de sua terra natal por um longo tempo, por diferentes razões. Por meio da movimentação das personagens através das fronteiras entre o mundo indígena e o mundo da sociedade majoritária, a narrativa desses autores se opõe a uma projeção dos povos indígenas a um passado para eles construído através da manutenção de seus artefatos e restos mortais em museus. Por meio da leitura das obras dos autores aqui focalizados, as fronteiras culturais evidentemente se alteram. Vejo que suas obras contribuem para a criação de um espaço que pode ser compreendido como a “pedagogia de fronteira,” anteriormente definida. Através de suas narrativas, uma história está permanentemente sendo contada, juntando passado e presente em um presente contínuo no qual é possível perceber uma constante variação de fronteiras culturais e políticas.
Referências Bibliográficas:
ALLEN, Paula Gunn (ed.). Studies in American Indian Literature: Critical Essays and Course Designs. New York: The Modern Language Association of America, 1993
_____. Where I Come from Is Like This. In: LESTER, James (ed.) Diverse Identities, Classic Multicultural Essays: Lincolnwood: NTC, 1996
BOMBERRY, Victoria. Constructing the Imagined Space of Native America: Leslie Silko, Joy Harjo, and Lucy Tapahonso. In: Native Americas. Fall/Winter 1994. P. 128-132.
BRYDON, Diana. The White Inuit Speaks: Contamination as Literary Strategy. In: ASCHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen (eds.) The Post-Colonial Studies Reader. London/New York: Routledge, 1995
FRANCESE, Joseph. Narrating Postmodern Time and Space. Albany: State Univ. of New York Press, 1997
GIROUX, Henry. Postmodernism as Border Pedagogy: Redefining the Boundaries of Race and Ethnicity. In: Natoli, Joseph & Hutcheon, Linda (eds.) A Posmodern Reader. Albany: State of New York Press, 1993. P. 452-496
HOGAN, Linda. Journeys and Other Stories. Without Discovery: A Native Response to Columbus. Seattle: Broken Moon Press, 1992
JAKOSKI, Helen. Leslie Marmon Silko: A Study of the Short Fiction. New York: Twayne Publishers, 1988
JECUPÉ, Kaka Werá. A Terra dos Mil Povos: História Indígena do Brasil Contada por um Índio. São Paulo: Fundação Peirópolis, 1998.
_____. Todas as Vezes que Dissemos Adeus. São Paulo: Fundação Phytoervas.
MOMADAY, N. Scott. House Made of Dawn. New York: Harper & Row, 1989
SCHUBNELL, Mathias. N. Scott Momaday: The Cultural and Literary Background. Norman & London: Univ. of Oklahoma Press, 1985
SILKO, Leslie Marmon. Ceremony. New York: Penguin, 1986
THORNTON, Russel (ed.) Studying Native America: Problems and Prospects. Madison: The Univ. of Wisconsin Press, 1997.
[1] FRANCESE, p. 3. Minha tradução.
[2] GIROUX, p. 461. Minha tradução.
[3] GIROUX, p. 479. Minha tradução.
[4] Id., p. 480. Minha tradução.
[5] JAKOSKI, p. 3 Minha tradução.
[6] Id., p. 3. Minha tradução.
[7] BOMBERRY, p 129. Minha tradução.
[8] SCHUBNELL, p. 8. Minha tradução.
[9] Id., p. 8. Minha tradução.
[10] HOGAN, p.223. Minha tradução.
[11] JECUPÉ, Todas as Vezes que Dissemos Adeus, p. 26.
[12] Id., A Terra dos Mil Povos: História Indígena do Brasil Contada por um Índio, p. 11.
[13] THORNTON, p. 385. Minha tradução